É tiro certeiro: se viver tempo suficiente pra cometer uma estupidez e sobreviver a ela, vai clamar seu feito a quem quiser ouvir - e aos que não quiserem também, pois, na vida, tudo é uma questão de oportunidades. Ah, sua mal agradecida! Você está tendo oportunidades que eu nunca tive! Grande coisa. Por acaso alguém me perguntou se alguma dessas oportunidades se relacionava, de alguma maneira, com as minhas vontades? Porque, até aí... todas as vezes que vou ao banheiro, deixo escapar uma incrível oportunidade de me alimentar do meu próprio trabalho... Os pais deveriam cobrar menos dos seus filhos e mais de si mesmos, quem sabe. E as crianças... bem, elas poderiam ouvir um pouco menos do que dizem os seus pais. Isso, sem dúvidas, provocaria mudanças tão profundas na nossa sociedade, nos relacionamentos interpessoais, nos tipos que iriam existir... bem, talvez seja mesmo bom que a minha ideia continue sendo ignorada.
A despeito de tudo isso, o fato é que, numa determinada altura da vida, todos resolvem escrever uma auto-biografia. É só ficar por aqui durante um período relevante de experiências que essa ideiazinha acomete qualquer criatura. Felizmente, várias delas desistem antes mesmo de colocá-la em prática. Infelizmente, o mundo é cheio de gente, então a evasão não é tão significativa a ponto de nos proteger satisfatoriamente da exposição à muitos lixos "culturais" - "culturais" porque foram produzidos por uma cultura, questionável, sim, porém ainda uma cultura, um laço que une vários indivíduos, e não no sentido mais carregado de valor que a palavra pode assumir.
São atores do submundo gemendo seus garranchos, profissionais liberais dissertando sobre seus serviços, políticos derrotados e políticos vitoriosos fazendo campanha de suas peripécias plenárias, palhaços chorões nos deprimindo com suas mazelas de vida circense e deprimidos do povo nos inspirando com sua ascensão. Tudo vale. Mas quase nada presta. O presente, inclusive... Mas, bem... pelo menos, eu tive a decência de avisar.