segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

People's sanity

cada palavra que você aprendeu com seus pais
cada valor que sua família lhe ensinou
cada conceito que você aprendeu
você está preparado para o mundo?

para resistir a toda situação trivial que te abala?
para os que dizem ao contrário de tudo?
está preparado para se enfrentar?

para provar cada temor
para saborear as maiores delícias
para mascarar-se de hipocrisia?

pode imaginar o mundo como ele lhe foi apresentado? Ideal?
porque alguém haveria de lhe apresentar o mundo, se o mundo é só seu?

você se veste com o conhecimento dos outros
você vê imagens turvas daquilo que é perfeito
a realidade que você deseja é a que você tem
então por que se esquiva dela?
para que alguém precisa entender?
preste contas à sua própria mente/consciência
e verá como está muito mais em débito com ela
do que com aquele que ouve suas mentiras

imagine por um momento que você está desprovido de qualquer responsabilidade
a convivência social não lhe causa fobia/fadiga/asco?

aprender
ensinar
saber

educação, gentileza, bom comportamento
não são apenas palavras
domesticado/doutrinado por regras
apresento-lhe o mundo das
pessoas dotadas de caráter
do bom dia cordial e do muito obrigado
onde tudo deve ser feito e
tudo está no devido lugar
eles lhe ensinaram tudo
nada lhe faltou
estamos então prontos para o mundo
para ver a miséria sem pudor lhe tocar os olhos
prosseguir sem se abalar com as questões triviais
apenas coloque seus óculos de hipocrisia
beba-a, vista-se dela
veja que o mundo tem
pessoas dotadas de caráter
tudo está sendo feito
e está no devido lugar
em algum acidente corriqueiro
em meio aos 'bom dia' e 'muito obrigado'
a lente caiu ~> parada, barulho crescente
o mergulho em um lago gelado
toda a sensação de prazer culposo (sujo, incorreto)
envolvendo seu ser
sinta-a, deleite-se dela
os dogmas são todos falsos?
as maiores mentiras são verdades irrefutáveis?
voltar à superfície ~> quebra de tempo (necessidade)
saudade da velha falsa realidade?
medo de encarar o novo mundo? não está pronto para se enfrentar?
desejo... deixe-se afundar
a margem ~> parada brusca
choque, confusão, incerteza
regras
preste contas à sua própria mente/consciência
veja como está muito mais em débito com ela
do que com aquele que ouve suas mentiras
lente trincada/danificada
porém
volte a usá-la/vesti-la
vida alucinada de realidade
choque, desespero, julgamento, loucura

Obs: escritos de 10 de março de 2007, com várias outras anotações aleatórias. São o mapa de uma música nova, que, hoje, remodelada, se chama Doped by facts. Encontrei-lhes anexados a anotações sobre o livro Ilusões, de Richard Bach, feitas em 06 de março de 2007. O contexto era o de experiências totalmente novas, com pessoas relativamente novas... sensações que, hoje, são velhas conhecidas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Tanto amor vazio.

O que é a saudade senão uma falta da oportunidade de sentir uma emoção? Ela pode ser vista, também, como um intensificador de sentimentos, uma emoção ruim, um problema matematicamente equacionável ou o que seja, mas, saudade, basicamente, constitui uma ausência. A despeito das vertentes da saudade, a que sinto é insubstituível: jamais poderá deixar de ser saudade, assim como jamais deixará de estar presente. É uma saudade que posso sentir no futuro; volta e meia ela vem se reafirmar em meus pensamentos. Não que meus pensamentos, por sequer um instante, deixem de pensar essa saudade, tão intensa e genuína ela é, mas eles são constantemente tomados por outras ocupações que, sem nenhum pudor, vêm desviá-los da tamanha ausência sobre a qual meditam. Se o mundo não fosse tão injusto e alheio aos sentimentos de todos nós, permitindo que vivêssemos a todo instante aquilo que realmente importa viver, ele me permitiria viver, indefinidamente, essa saudade, sendo que ela ocuparia cada contração muscular, tornando todo tênue inspirar e expirar conscientes de sua presença, além de dedicados a lhe servir, arejando o cérebro o suficiente para seu mais pleno funcionamento, o que o tornaria capaz de chegar o mais próximo possível da compreensão de sua magnitude. Essa saudade não tem fim, não tem limites, não tem virtudes. Não é do tipo que, à medida que vão transcorrendo os anos, desvanece, mas sim daquele que se intensifica a cada segundo, ficando mais forte e marcante, menos discreto e mais pronunciado. É a saudade consciente, saudade convicta, saudade sincera. Saudade da perda, da primeira verdadeira perda. É a saudade da conscientização. Saudade da evolução. Saudade da vida.

A primeira constatação de que o amor não é eterno. Isso não pôde ser ensinado pelos livros, apenas pela dor da real constatação.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Classicismo .

Não seria bom perder a oportunidade para fazer uma retrospectiva, mesmo com o histórico já sujo por uma tentativa frustrada, imprecisa e incompleta, pois a memória trai, ainda mais a de quem é tão inconstante. A primeira queixa é quase metalinguística, pois li pouco durante o ano de 2008 - sinto o impulso de dizer "aquilo que seria do meu grado", aquecendo-me para a queixa quanto aos minutos dispensados à leitura universitária, mas temo que ela não seja verdadeira - e, como consequência, merecida e pesada, além de não desfrutar do próprio prazer da leitura, perder o hábito edificador que me era deleitante, desenvolvi uma incapacidade dissertativa irrestrita: os textos perderam pontos em sua estrutura, sua consistência tornou-se duvidosa e empobrecida, a articulação ficou fraca, a acidez transfigurou-se em simpatia, o vocabulário fez-se menos criativo e propício, ou seja, o lápis perdeu sua desenvoltura no contato com o papel e, enfim, os pensamentos ficaram envergonhados por sua própria falta de coerência e coesão. Junto a esta queixa está anexa a primeira meta - as abomináveis metas do começo de ano, tradicionalmente convencionadas, secularmente recitadas e raramente objetivadas -, que é a de recuperar, ao menos, a antiga capacidade intelectualizante da leitura e escapista da dissertação. Sem ambas não sei como vivi todo um ano - desejando acreditar fortemente que não apenas sobrevivi, pois há razões estimulantes para tal -, sem viajar particularmente pelos recônditos de minha mente perturbada e extravasar as ondas de emoções de modo codificado, com um toque de presunção, a fim de permanecer apenas com aquela sensação reconfortante e estabilizadora de missão cumprida.
Agora, obedecendo a uma classificação de acordo com a importância, não sei ao certo qual deveria ser a segunda queixa. Provavelmente isso se deve ao fato do acúmulo de pensamentos não expostos - sequer internamente aproveitados, francamente - que se acomoda em minha mente ter finalmente encontrado, aqui, oportunidade de expressão, o que os faz permanecer todos confinados ao quase, ao muito próximo da realização, em função da falta de organização que impera no desespero pela fruição. Talvez seja essa uma boa reclamação: ficaram muitos porvires e muitos aproximadamentes. Os sentimentos não puderam ser plenamente sentidos, as emoções expressas e tampouco os pensamentos refletidos. Tudo aconteceu muito rápido, nunca o relógio foi tão ingrato ou o calendário tão assustador. Se isso for, como muitos disseram, a vida, perdoe-me, mas prefiro continuar apenas com aquele projeto que havia experimentado até então. Adaptar-me a tudo isso foi dolorido, apesar de a dor ainda não ter sido real, e custoso, apesar de o valor ainda não ter sido corrigido.
Contudo, a despeito de ter dito coisas que, desatentamente, podem ser interpretadas como destaques somente aos aspectos puramente negativos, não pretendo amaldiçoar 2008, esquecê-lo ou arrepender-me dele, pois foi simplesmente o ano mais inédito de toda minha curta existência. Isso não se deve somente ao fato do meu ingresso na universidade, o que é banal demais em relação à amplitude daquilo que acredito ser deveras relevante. Em 2008 eu descobri que a vida acontece, que nós precisamos fazer, que o videogame pode ser um microcosmo simplificado e amenizado da espantosa dinâmica do universo, que nenhuma metáfora é suficiente para explicar sentimentos jamais vividos e repentinamente cônscios, que as experiências podem nos fazer aprender de verdade, que podemos ser simultaneamente hipócritas, demagogos, mentirosos, inteligentes, amorosos, completos idiotas e brilhantes - o que é o ápice da humanidade -, que as pessoas são horríveis e inexplicavelmente atraentes, que as pessoas são diferentes, que as pessoas são iguais, que eu sei tudo e não sei nada, que é impossível compreender com o coração, que o amor não é para sempre e que tudo, até mesmo o mais puro, sincero e intenso sentimento é perecível, dentre tantos outros quês felizes e infelizes, tão embora tudo isso seja pouquíssimo e incompleto.
Algumas coisas me dão vontade de explodir e, acima de tudo, tenho vontade de dizer tudo ao mesmo tempo, intensamente, pois os pensamentos não param de fervilhar e, com isso, fundir minha mente ao meu coração, lembrando que os músculos se cansam e nos lembram de que o mundo físico ao nosso redor faz cobranças a todo momento e, portanto, as realizações não correspondem aos nossos desejos ou mesmo aos nossos esforços.
E, pois é, não basta dizer e criar ilusões, é preciso decidir um caminho a tomar e, a partir daí, segui-lo com garra e convicção, agindo factualmente. Enfim, o que eu gostaria era de não me esquecer jamais da crucial importância desse ano que se concluiu, rejeitando todas minhas revoltas contra o senso comum, essas noções e comemorações estúpidas, do quanto minha vida mudou categoricamente durante ele e cada detalhe maravilhoso que ele encerra. Mas... desejos, esforços e realidade... After the game is before the game.