quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

contradições entre a modéstia e a humildade

Não sou nada, a não ser uma versão simplificada daquilo que a vida foi capaz, até hoje, de imprimir em mais uma dessas criaturas humanas. Nunca crio nada, pois tudo o que digo, penso e faço são apenas reinterpretações do mundo em que vivo, porque eu sou o mundo todo a partir de uma visão unilateral, apesar de viver em constantes aporias devido aos meus diferentes pontos de vista concomitantes. Nem sequer essa explicação da parte mais íntima das minhas idéias posso dizer que é minha. Sou um plágio de outras pessoas. Melhorado e com novos defeitos. Dizem que a arte com sentimento, o ponto máximo da expressão, é auto-explicativa, é sublime. É o que faz do artista bom no ramo, ou seja, é aquilo que lhe traz reconhecimento. Mas, por vezes, acredito que o inverso é mais verdade. É injusto não ser um artista de prestígio, pois sua arte não será compreendida, ninguém se dará ao trabalho de analisá-la e, provavelmente, você será julgado um péssimo amador. A verdade é que não me sinto distinta o suficiente para merecer prestígio, mas também sei que não sou incapaz de expor idéias e sentimentos. Eu aprendi a ler a mente das palavras, a conversar com elas e a extrair a essência do seu âmago! Não sou perita nisso, nunca o serei. Mas eu aprendi, de certa forma. Eu aprendi a escrever, aprendi a me confessar com as palavras e fazer delas boas confidentes, apesar de saber que essa condição se extingue quando alguém com igual capacidade de seduzir palavras aparece, extraindo meus segredos das minhas melhores amigas. Caeiro, que escrevia uma filosofia anti-filosófica, foi e ainda é aclamado por isso, por sua contradição. Eu, todos os dias, sou criticada pela minha falta de clareza, "prolixidade", ou outras causas injustas. Há pessoas querendo barrar algum brilhantismo que eu possa possuir. Li, em algum outro autor, que "são precisos anos de experiência para ser capaz de criar sem um público". Eu não possuo tais anos. Sei que, até possui-los, sofrerei muito com isso e me deixarei abalar inúmeras vezes. Porém, eis minha válvula de escape: se é que possuou algum intelecto, há pessoas tentando destruí-lo, o tomando por incorreto ou irreal, substituindo um trabalho de alma por similaridades frívolas! Me sinto injustiçada, mais uma vez, pois caberia a mim explicar tudo sobre o que discorri até então. Não o farei. Tomei uma decisão: vivo para mim. Sei que será difícil agir de acordo, contudo, é este meu protocolo! Não danço conforme a sua música. Pode parecer que sim, mas saiba que meu corpo é apenas uma carcaça, algo que, nesse plano, é útil para que meu conteúdo, minhas idéias e meus sentimentos, permaneça imaculado, sem o iminente perigo do contato com suas trivialidades. Por dentro eu rio de você. Nada me dará mais prazer do que ver você, em seu ledo engano, acreditando que conduz essa dança. Eu sou tudo o que há de melhor para mim. Finja ser ardiloso enquanto eu finjo ser estúpida. Estou me deleitando com a companhia sem igual que só a solidão pode me oferecer.