quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O compasso da natureza, o ritmo da vida.


Seria a vida natural? Mesmo quando nascemos, em cidades impermeabilizadas, assim como os corações que as construíram, naturalmente não somos feitos para pertencer ao lugar em que vivemos. E, com certeza, para que sejamos plenos, haverá um ponto de nossa vida em que nos daremos conta de que essa verdade sempre nos acompanhou. Desse momento em diante, tudo continuará sendo do mesmo modo que até então o fora, exceto pela presença fria da sombra daquilo a que chamamos de consciência, megera acompanhante dos felizardos que se deparam com as deprimentes verdades da vida, hipernatural.
A natureza segue um compasso peculiar, a vida, dependendo do momento e de quem é o maestro, tem um ritmo que o é ainda mais e, sem reminiscências, não procura adaptar-se harmoniosamente ao resto dos elementos que procuram lhe ser complementares. O que quero dizer é que somos maestros arrogantes de uma orquestra que pretende, fora de casa, num palco gentilmente - ou na medida em que é possível e no ângulo então valorizado - cedido, interpretar uma obra fracassada, intuindo desdenhar do simpático público e do adorável anfitrião.
Mesmo a arte não é natural, pois ela é - quando verdadeiramente arte - a expressão da nossa humanidade. Quantos poetas, efêmeros em sua memorável imortalização, com seus versos efêmeros, não procuraram exaltar a vida bucólica? Mas ela é inviável. Observe o lacônico movimento das nuvens, que se vão transfigurando de coelhos a feições que buscam desesperadamente saciar o desejo de um insípido beijo, fugidio e sem sentimento, e, quando um ponto de luz lhe fizer vislumbrar a realidade do homem rasgando violentamente a beleza do céu, todo um ano se foi, a história da sua vida sofreu uma brusca inovação, caminhos decisivos - quais não são? - foram tomados e você sequer foi capaz de se dar conta disso tudo. As nuvens estão muito diferentes, no meu céu, tudo são flores.
No contraste que é o universo, eu sentei para observar uma flor, que nasceu na fenda de uma calçada, morrendo. E, nesse mesmo instante, minha vida se levantou para me observar, achando patética a minha vontade de unir-me à natureza de modo harmonioso, desaprovando minha pretensão, pois volições e realizações são dissonantes quando se diz de pessoas. E as pessoas nada são se comparadas à vida. Elas são desprezíveis; todas as partes separadas, quando juntas, não resultam em mais que um monte de fingimento.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Terça ou quarta...

Por que tão feliz?



Eu gostaria de não estar tão bem, pois assim eu poderia me sentir um pouco melhor. Não acho a felicidade muito intelectualizada... acho-a menos ainda bonita. Ela só é prazerosa, mas, eis que o prazer pleno é a felicidade constante, sendo esta impossível, aquele é utopia. E por quê o hedonismo? Por quê essa droga de lei máxima da vida? Por que todos nos resumimos apenas a isso? Não quero me unir à prostituta e ao advogado nessa busca irracional. Eu quero viver a mim, explorar tudo o que, dentro da minha pele, há de melhor. E o que lá existe não é felicidade. Esse sentimento barato é o que me reduz à prostituta e ao advogado. Sejamos todos livres e vivamos nossa vida de prostituição e advocacia, ao menos uma vez por dia, nos vendendo, filantropicamente, em nome do prazer do próximo e defendendo a todos de seus próprios fantasmas, inclusive dos nossos.
Nunca antes as palavras foram tão imprecisas e as frases tão incertas, pois não havia o torpor proporcionado por essa felicidade vigarista. Ela só veio para anuviar meus pensamentos, tirar do meu lápis a habilidade e dos meus olhos a atenção. Eu gostaria de falar sobre o tamanho do meu amor, da minha dor, da riqueza das minhas reflexões, do meu - breve e, justamente por isso, cheio de remorso - arrependimento, da minha falta de virtudes e da minha desilusão sobre o mundo. Mas como falar disso quando se está imerso em enganos deleitantes? Queria falar do meu asco às frivolidades, mas é passo em falso. É exatamente isso que estou fazendo. Minha incorruptível convicção se deu a idiotices. Só queria entender por que razão ainda me sinto tão bem - afora a incapacidade dissertativa atingida em alto nível e grande estilo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Não que eu me orgulhe disso ...

mas é possível ser gratificado por suas omissões, suas hipócritas atitudes, suas falsas demonstrações e indiferentes realizações. Mas isso é algo que eu já deveria ter imaginado há muito tempo. Não somos omissos apenas em relação a coisas boas, egoistamente, tampouco hipócritas com as ruins, obstinadamente. Há sempre um quê de incompreensível em nossas ações, mesmo em algumas das menos dignas de reflexão.
Ainda assim, é provável que nos orgulhemos de tais gratificações. Não que isso seja um problema, mas é só mais uma etapa desse ciclo, pois um sentimento de culpa, mínimo que seja, que esteja contido nesse orgulho já é suficiente para a atribuição de um valor negativo ao primeiro sentimento; aos outros, quem sabe, por conseguinte.
Não sei o que penso a respeito da sabedoria, se ela implica práticas que a comprovem ou não, nunca passei por um momento suficientemente ocioso e intelectualizado para chegar a uma conclusão, mas sei que, a respeito de todo o conflito, soube por toda a minha vida, sempre. Diferente de prepotência, como pode parecer, isso é uma confissão frustrada, o reconhecimento da incapacidade - independente dos seus motivos - para mudar verdadeiramente meu modo de viver.

domingo, 5 de outubro de 2008

Seria maravilhoso se eu soubesse melhor o que dizer ...

porque é sobre você que eu menos tenho propriedade para romantizar; bem sabemos que a poesia, ignóbil, só se aplica a uma única, perfeita e especial criatura, cuja supremacia reconhecemos sem mais. Contudo, a inspiração está na essência da relação, logo, experimentemos. Na nossa história a razão não é presente por outro motivo além da sátira, afinal, não há pretexto suficientemente forte para que preenchamos uma lógica sentimental objetiva. Pode ser que existam outras mil repetições da nossa prosa, mas tenho certeza de que ela é, dentre todas, singular. O ideal seria ver duas crianças, na gangorra, rindo juntas, que, alguns anos mais tarde, cruzariam os canudos, vestidas em becas iguais e, mais tarde ainda, se encontrariam, primeiramente no horário sagrado do almoço, um brinde à amizade, depois, somente aos domingos, para que se pudesse ver, então, novas crianças dividindo a gangorra e, com isso, tirar proveito de boas lembranças, experimentando saudades e arrependimentos, cogitando possibilidades, tomando consciência do que é a vida, de modo gradativo e adequado. Tudo isso é belo, bastante rústico, e merece ser emoldurado por uma memória bem entalhada. Mas acho que exibir memórias no console de uma lareira, ao som lamurioso de uma vitrola introspecta, não faz o tipo... É tudo muito piegas, inclusive tal emprego léxico. O ponto forte é que, provavelmente, jamais chegaremos a um acordo, às vezes simplesmente por falta de disposição para, mas, sem maiores considerações a respeito, não precisamos mudar isso, já que somos capazes de conviver bem com a diferença. Pelo menos com a nossa, na qual somos hábeis para chegar a um consenso, mesmo entre todas as inumeráveis desavenças. Tudo se resume ao copo. Hoje é outro dia e não me sinto, como no anterior, disposta a deslindar de modo cronologicamente ordenado tudo aquilo que diz respeito ao nosso encontro. Apesar disso, gosto da primeira parte que foi laboriosamente tramada. Nunca antes deixei transparecer, de modo tão desavergonhado, o ponto em que se entrelaçam os blocos do texto, pois sempre me esforcei para, por pensar que assim o argumento ganharia força, tornar toda uma rede de pensamentos, superficialmente desconexos, numa única idéia consistente. Reiterando, estou, portanto, pedindo que experimentemos. Será minha inauguração em tal esforço e, como é com você, creio que poderei sentir-me livre para arriscar, uma vez que já inauguramos tantas outras ocasiões. Ou, pelo menos, é o que acredito. Depois de tanto discurso vago, imaginando que finalmente brotariam-me as palavras mais adequadas para ilustrar o que sinto, as palavras que faltam são gradualmente transformadas naquilo que sinto, sendo que, com isso, o sentimento inicial não se extingue, apenas se perde em meio às transformações que lhe dão novas cores, fazendo com que todos os sentimentos acabem por se assemelharem, abrangindo matizes não muito variadas e nem tanto atrativas. Eles são, agora, atrativo amargo apenas para quem os cultiva. Mergulhando em mim mesma, os vejo implorando por olhares, pedindo atenção. Mas não lhes concedo tanta, afinal, não poderei dissertar sobre algo tão insípido. Enfim, a tentativa foi feita - experimentamos - mas, provavelmente, o objetivo não foi atingido. Tudo o que sinto foi transformado em prosa. E a prosa se acabou. Mas não o que sinto.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Reservando para o grand finale.

Se tivermos, da vida, a ilusão do cinema, alguém ¹ nos perdoe, pois somos pequenos sonhadores, iludidos duas vezes. O cinema, apesar de quase nunca decepcionar, criado por pessoas, também pode falhar. A música pode não tocar e o mocinho perder a batalha. Sem dizer dos últimos segundos, que podem não ser o bastante. É apenas uma aproximação probabilística, quase científica, de nossas insustentáveis esperanças humanas. Ou seja, são navios no céu. Já a vida. Ela é mais uma demonstração do quão fúteis são os nossos desejos. Queremos algo grande, almejamos uma vasta abrangência, repudiamos os limites, sem dúvidas. Mas simplesmente negligenciamos tudo o que é desejado. Verdadeiramente, tudo o que se quer é ser amado, além do ser amado. Às vezes me pergunto se não é mesmo o desfecho que valida toda a trama. Depois de concordar, fico pensando o quanto isso é injusto. Por que razão (que razão há nisso, senão o costume) deveríamos imaginar que as últimas linhas são a explicação de todo o labor deslindado anteriormente? Afinal, depois do final, o que há, senão dúvida? E, depois da vida, o que há, senão a escuridão em que se encerram os questionamentos mais belos e, quiçá, frutíferos? A trilha sonora, na vida, nem sempre é agradável, tampouco condizente com o momento. O sentimento, contudo, sempre é correto, pois basta sentir para saber que é verdadeiro. Não é falácia, não é sofisma. É apenas fé. As horas não são estipuladas previamente, não é possível retroceder e a projeção... é apenas virtual. Logo, quem imaginou a vida provavelmente fundamentou-se no momento em que a vida acontece, com o privilégio de poucas certezas inconsistentes, que, apesar dessa qualidade, são suficientes para uma existência consciente: o passado permanece no ser, permitindo que nada seja em vão; o futuro é cheio de possibilidades que vão se insinuando à medida que a vida acontece, de acordo com suas especificidades, mas uma delas, a única sobre qual estamos certos, é a escuridão da dúvida, que associamos à finitude. Com essas duas sentenças, deveríamos ser capazes de usufruir plenamente dos momentos, contudo, não sei em que ponto isso aconteceu, perdemos a capacidade para fazê-lo. Esperamos até que o fim esteja inegavelmente próximo para intencionarmos algum tipo de sabedoria na prática da vida. Método nem um pouco sagaz. E, sem mais, digno de muito pesar.

¹ denotação de um pouco de agnosticismo, de incredulidade a respeito da superioridade metafísica... coisas do tipo. Jamais falta de fé.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Com o tempo a gente aprende...

isso é... se o tempo implicar a prática.
Não devemos nos julgar tão queridos quanto imaginamos, tampouco tão odiados.
Não podemos acreditar tanto nas pessoas, mas também não é bom duvidar com muita frequência.
Não é interessante centrar-se apenas nos aspectos negativos, porém, só pensar nos positivos lhe torna um infeliz sonhador.
Não é bom refrear a expressão dos sentimentos, mas, se você crer na vida como uma guerra... sim, daí é bom.
Não é legal ignorar, mas saber tudo [o que é possível saber] pode ser um tanto decepcionante, assustador. Ou os dois juntos.
Tanta coisa não é legal, não é boa, não é interessante, não podemos e não devemos. Ah, tanta coisa é tão pouco, o que é mais são os contrastes. Mas onde estão? Qualquer dia eu lhe convido para sairmos juntos à procura... devem estar tão longe... uma companhia é viável, além de desejável. Acima de tudo, não é aceitável que digamos muitos nãos. Isso é um exercício gramatical e filosófico. E a roda da vida não sorteia dólares.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

20 de Agosto de 2008.

Hoje faz quase uma semana que eu tomei uma decisão muito importante. Também faz quase uma semana que eu sinto as coisas como não as sinto há muito tempo. "Coisas" é uma palavra muito feia, portanto, explicarei melhor. São vontades, impulsos, desejos, medos, angústias, certezas fugidias, motivações, paralisias, cheiros, cores e sabores, tudo muito bonito. Sentimentos são trivialidades. O bonito é falar sobre eles.
Não que eu tenha me esquecido, mas hoje, também, é aniversário do meu pai. Trocamos ínfimas palavras - na verdade, houve um momento de bombardeio de palavras e outro de expiação com as mesmas, mas nenhum de troca, realmente.
Como não bastasse, hoje acho que magoei uma pessoa importante, pois acho que ela se viu atacada pela minha revolta com todo o resto. Mas, como é inegável, hoje é sempre um dia pesado. Só por hoje eu tenho razão, todos devem tolerar meus desaforos, acompanhar meus devaneios e, enfim, me dar um abraço.
Assisti a várias aulas aborrecedoras, com o intuito de, com garra, perseguir o meu maior - e mais misterioso - objetivo, sem saber ao certo o porquê, uma vez que elas não me trouxeram nem um pouco de felicidade. Ou, ao menos, nada disso foi feliz hoje, no hoje. Pode ser que, um dia, quando estava por vir, para se tornar futuro, hoje tenha sido um dia feliz, ou, ainda, quando for passado, hoje seja um dia feliz. Eis que o tempo muda a história - nesse momento eu resisto ao chulo trocadilho, sábio, verdadeiro e barato. Chulo.
Contudo, sem me perder em meio a esse dissabor tão específico, volto à deprimente aula. Cá estou, digerindo idéias e algum alimento, de quebra. Nas costas, arde o arrependimento e a esperança de reconciliação, de longe uma almejada paz. Quanta dor invisível!
E, em meio a tais situações, somos capazes de ouvir as respostas às perguntas que insistentemente repetimos, sem voz nem real interesse? Hoje eu conheci uma pessoa, em meio ao enfado, que eu jamais me daria ao trabalho de conhecer. E ela se mostrou - ou fui eu quem a li - tão parecida comigo quanto fui capaz de observar e admitir. Eu sou tão desinteressante... Náusea de solidão. Decepção. Vaidade posta em xeque. Ora, a despeito de tudo isso, narcisicamente, me dei ao luxo de ter interesse, senão pura curiosidade, pela sua história. Mas, por favor, de modo breve, para que não extrapolemos a boa vontade.
A criatura mostrou-se apaixonada e convicta (ah! Paixão e convicção, duas coisas tão perigosas quando separadas...) por objetos e sobre aspectos que outrora foram alvo da minha devoção.
Só eu sei o quão repugnantes são essas idéias no momento. Nunca meditei o suficiente sobre nenhuma delas, creio, porém, a cada vez que elas resultaram numa atitude, houve uma onda de bons motivos que subsidiaram tais ações.
Afora essas citações demasiado vagas, apenas instigantes e sem proposta de, sequer a disposição para, demonstrar seus fundamentos, a filosofia é muito simples. Tanto que é quase vergonhoso, uma vez que o desejo de expressão, direta, é vencedor na batalha travada com a capacidade de dissertação, do tecer de uma lógica.
Grande parte do que a criatura aspira foi o que, recentemente, eu vivi, com facilidade e, de certa forma, sem intensidade ou interesse. Em poucos dias de efervescência mental, todo o curso de uma vida pode ser alterado. Hoje, há quase uma semana, eu acabo de tomar uma decisão sólida, bastante parecida com a que acabo de pôr termo, num processo que durou aproximadamente duas semanas. Sobre a idoneidade dessa nova idéia, dessa decisão, poderei falar a respeito, com o mínimo de propriedade, duas semanas após colocá-la em questão novamente, caso isso ocorra. Em caso de não acontecer, fica pendente, como os maiores questionamentos do ser humano, essa frívola dúvida a respeito de uma única irrisória sobrevivente. Hoje, eu quero ser diferente do que sou. Daquilo que a criatura me apontou. Em um outro lugar. Isso porque, hoje, percebi como estou aquém das expectativas que suportei há alguns hojes atrás.
Ah... por que o Universo opera desse modo? Quando estou me ocupando de afazeres repugnantes, não gosto de acreditar que tudo o que possuo é aquele exato instante, o tal presente. Nunca estive no futuro no momento em que ele acontece, portanto não sei dizer se me afeiçoei a ele. Entretanto, na maioria das vezes, gosto de pensar que possuo, em alguma parte, os dias que já foram. Seu álbum de fotos é um exemplo, ou melhor, uma prova de que você também gosta disso.
Mas, o que aconteceu, hoje, é que, sem mais demora, eu gostaria de saber: quando as pessoas são extremamente importantes na nossa vida - para que nelas depositemos todo o nosso amor, para que nelas nos apoiemos e confiemos, para que tomemos ou não uma decisão, pelos mais variados motivos -, elas têm consciência disso? Eu tenho um palpite. E é de que não. Ainda há uma pergunta mais dolorosa: elas o sabem na hora certa? Também tenho um palpite a respeito. Se é que existe o momento oportuno, ele não existe. Pelo menos para mim, talvez por nunca ter sabido aproveitá-lo, talvez por só existirem os momentos errados.
Hoje, só uma coisa eu garanto. Há pessoas tão importantes, mas tão importantes, que nem devem ser mencionadas.

sábado, 5 de julho de 2008

nostalgia .

Voltar atrás. Sempre, sempre, resgatando o que já se foi. Não consigo entender essa necessidade, dar-lhe alguma razão. Talvez ela não seja, realmente, justificável. Caso assim seja, serão devaneios dos quais me arrependerei, mas tornarei a vivê-los, sem saber o porquê, mas sabendo, sempre, aonde me levarão.
Os sentimentos de outrora já não têm o mesmo sabor. Talvez, até mesmo, sejam insípidos. Mas insisto em repassá-los na memória, quando não, à primeira oportunidade, vivê-los novamente. Sem motivos.
Sinto-me livre sem aqueles antigos pensamentos; certos conceitos já não me cabem mais, são memórias, sim, memórias, essa coisa sem substância que comanda muitas atitudes. Eles já não são minha realidade, eu tenho consciência disso. Mas, em certos dias, sinto-me vazia sem eles, mesmo sabendo que esse vazio é causado pela falta de sentimentos vazios. É incoerente, eu sei, mas o que há de coerente que seja capaz de parecer interessante? Eu sou suscetível às mudanças, me considero agraciada por esse poder, então, acredito que, um dia, poderei mudar essa opinião, mas, no momento, ela é minha certeza: por mais que eu sofra, não quero deixar de pensar, pois minha reflexão é tudo o que tenho. Não quero aceitar o que é imposto, ser rasa e deixar-me levar. Aceitar apenas o que parece ser coerente é negar a profundidade, a complexidade e o emaranhado da alma. A alma não é feita de conceitos que podem ser expressos em fórmulas exatas; ela aceita os paradoxos, as contradições, os antagonismos. Não admitir que desejos conflitantes nos assomam a alma é o mesmo que procurarmos nos esquivar da responsabilidade de tudo o que acontece em nossa história. Para se tornar algo mais próximo do completo é preciso negar esse monismo.
Nossa existência não se resume a um traço retilíneo.

domingo, 8 de junho de 2008

sentimentos deslocados .

Quando você não se queixa as pessoas pensam que você não tem de que se queixar. Sua vida torna-se extremamente fácil e frívola, portanto você tem a obrigação de assistir os outros com seus fardos. Qualquer tentativa mínima de expressão é recebida com hostilidade, pois não é direito dos abastados o pesar - o único pesar permitido é aquele que você atribui aos outros, pobres mártires. Por não ser expressivo, contente-se com sua posição de depósito emocional.
Se você procura ser afável, deve saber que o está fazendo para os outros - os fracos precisam de companhia, daí adotam uma postura atrativa. E se você ama, de verdade, é o ser menos capacitado para explicar o que é o amor. Além de que deve viver em constante aporia, pois o amor não pode ser só felicidade - que, diga-se de passagem, jamais poderá ser plena -, bem sei como ele não passa de um estado constante de ansiedade e confusão.
Não importa o quanto você procure negar, é impossível familiarizar-se, de alma, com os erros imperdoáveis que passaram a ser rotina. E não importa com o que, de mais deplorável possível, o objeto alvo do seu amor seja capaz de açoitar-lhe a face, ainda assim ele será, eterna, quem sabe, pois não conhecemos o limite do infinito, e verdadeiramente, sem dúvidas, seu amor e seu vislumbre de horrores idealizados.
Todos os seres humanos são assim, uma porção límpida e outra nojenta. Particularmente, acho que o que mais me desperta interese é também o que me traz a bile aos lábios.
Sinto muito por não estar um texto muito bom, mas é um texto desesperado.

terça-feira, 29 de abril de 2008

sobre respeitar o tempo dos outros ...

Há verdade no senso comum e nos provérbios populares. De fato há verdade nisso tudo e em outras coisas mais. Mas há também o depósito errôneo de outros gêneros nesse tipo de conhecimento. Quem enuncia essas verdades, por vezes, as dota de uma carga de preconceitos pessoais, além de, provavelmente, frustrações e todo tipo de sentimento ou valor contagioso.
Só se dá valor para determinado aspecto após dar-se pela falta do mesmo.
É dispensável explicar qualquer coisa a respeito, pois, todos sabemos, se não com a alma, ao menos com nossa capacidade interpretativa, o significado desse ditado. Além de que, no momento, não convém a interpretação pronta de uma única pessoa sendo imposta, pois toda a idéia cairia em contradição.
Basta dizer que esse é um ótimo ponto para ser tomado como exemplo. É de praxe que alguém, ao buscar apoio para uma situação que poderia ser prevista com esse conhecimento específico, seja recebido com afirmações de pretensa sabedoria. Como se houvesse alguém capaz de sempre saber tudo de antemão. Saber com verdade, saber sem a necessidade de provar o saber. Saber no mais puro sentido do verbo. Saber com propriedade.
Um sábio respeitaria o tempo de aprendizagem do próximo.
Além disso, ele parabenizaria o outro por sua inédita descoberta, com sincera admiração.
Não sou sábia. E fico furiosa porque os outros também não são.

sábado, 5 de abril de 2008

Loucura... toda essa contradição, a aporia do meu ser. Excentricidade. Abraços. Desespero... medo de encarar a vida, de não saber se o que está sendo feito é o certo, tampouco se aquilo que seria feito para mudar o é. Medo do caminho trilhado, mas também medo de imaginar o outro possível. Medo da possibilidade do arrependimento perante qualquer decisão que seja tomada. Medo também de ser passiva e não tomar decisões. Medo de tomar as rédeas da própria vida. Medo de encarar a vida. Medo de estar sozinha. Medo de toda essa indecisão. Medo do mundo. Medo do amor e da dor. Desespero generalizado. Paixão... amor pela vida, por toda e qualquer experiência, as prazerosas e também as dolorosas. Mas, principalmente, amor desenfreado pelas experiências que envolvem simultaneamente o prazer e a dor. Eufemismo... nenhuma exteriorização, nenhuma manifestação, só o belo, a reclusão. Sem demonstrações. Apenas idéias íntimas. Sentimentos particulares. A expressão da normalidade, rasa e simples. Confortável, fácil, aceitável... socialmente preferencial.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Cócegas na minha mente .

Cócegas.
O modo como cada pessoa reage a elas diz muito.

Existem as crianças que riem aquele riso delicioso, sincero e espontâneo, que nos deixa com uma vontade incrível e inexplicável de continuar vivendo. Para ter o direito de desfrutar da benevolência desse som puro, basta fazer cócegas na barriga de uma criança querida.

Existem os velhos que riem cansados, com expressões significativas, dizendo que, outrora, eles tiveram uma vida exatamente igual a sua. E lhe permitem concluir, caso assim deseje, que você também acabará rindo cansado um dia. Isso é injustiça da parte deles, de certa forma. Mas quando insistirmos em antecipar nossas vidas com o exemplo de outros, basta fazer cócegas na memória de um velho querido.

Existem as pessoas da idade indefinida. Não conheço muitas delas. Elas são raras. E estão em todo lugar. O tempo todo. Ora elas riem deliciosamente, ora elas riem cansadas. Elas possuem um estado de espírito inconstante, coisa esta que me encanta enormemente!
Se você fizer cócegas na consciência de uma pessoa desse tipo quando ela estiver remoendo certos pensamentos, ela pode lhe entregar uma expressão carrancuda, daquelas que são capazes de ferir boas intenções. Mas não se preocupe. Ao fazer cócegas na consciência de outra pessoa, certamente nossas intenções não são boas, portanto já estamos preparados para receber uma resposta ácida.
Para ganhar uma resposta afável, basta fazer cócegas nas exaltações pessoais de alguém que seja etariamente indefinido. Mas atente ao fato de que nada sobre sinceridade foi mencionado.
Se você fizer cócegas na fé desse tipo de pessoa, espere reações adversas. Ninguém seria capaz de sucintar todas as possibilidades existentes. Seria mesmo burrice tentar fazê-lo.


Hoje eu não fui capaz de fazer um rascunho. Simplesmente aproveitei para ouvir o que meus dedos tinham a me dizer. Quem mandava neles? Não sei... Agora sinto um alívio muito bom... Onírico. Boa Noite.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Hoje não é dia para se sentir bem .

Todos nós gostamos de falar sobre os nossos problemas, pois é deleitante mostrar-se um mártir. Dizemos, incessantemente, que procuramos a felicidade, mas que beleza há nela? Não há poesia na felicidade, não há canto, não há frases de impacto! Ser feliz é barato e é simples demais! Saborear o amargo de uma infelicidade é contraditório, mas a contradição é algo que dá brilho, reluz belas idéias, laboriosamente lapidadas por horas de sofrimento. O artista não poderia ser feliz sem a dor, já que desconheceria sentimentos dignos de expressão. Pode parecer paradoxal, mas definir tudo isso como uma construção criativa, um uso diversificado do efeito das palavras, é um insulto. Apenas a combinação de uma alma livre com uma mente expansiva é capaz de aproveitar bem experiências deliciosamente dolorosas sem cair no engano de julgá-las negativas. A contradição não converge para o erro, ela desenvolve novos aspectos. Digo que sofro e palavras não serão suficientes para explicar qualquer coisa e, ainda assim, tenho a necessidade de lhe enfastiar com meu discurso vazio, evasivo e confortante. O mesmo acontece com você, eu bem sei. Mas não preciso de nada que me faça bem, obrigada. Unicamente porque não faria valer a pena o abandono de uma dor tão sublime, ainda que pouco esclarecida. É bela porque a desconhecemos, então nos seduz. Os mistérios. Ah, os mistérios. Não procure a exatidão. Uma existência retilínea é pior que qualquer possível fim. Hoje não é dia para se sentir bem. Viver ciclicamente a mesma experiência fará com que você sempre a veja de uma nova maneira. Hoje é dia de sentir o fel. Não saber que palavras usar. Ou saber, mas não saber o porquê do desejo de empregá-las. Hoje não é dia para se sentir bem. Repetir tudo aquilo que já foi dito, com a certeza de que é único e especial. Hoje é dia de ver no escuro. Cegamente dizer, eloqüentemente escrever. Hoje não é dia para se sentir bem. Simplesmente porque não há uma razão suficiente para estar feliz.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

contradições entre a modéstia e a humildade

Não sou nada, a não ser uma versão simplificada daquilo que a vida foi capaz, até hoje, de imprimir em mais uma dessas criaturas humanas. Nunca crio nada, pois tudo o que digo, penso e faço são apenas reinterpretações do mundo em que vivo, porque eu sou o mundo todo a partir de uma visão unilateral, apesar de viver em constantes aporias devido aos meus diferentes pontos de vista concomitantes. Nem sequer essa explicação da parte mais íntima das minhas idéias posso dizer que é minha. Sou um plágio de outras pessoas. Melhorado e com novos defeitos. Dizem que a arte com sentimento, o ponto máximo da expressão, é auto-explicativa, é sublime. É o que faz do artista bom no ramo, ou seja, é aquilo que lhe traz reconhecimento. Mas, por vezes, acredito que o inverso é mais verdade. É injusto não ser um artista de prestígio, pois sua arte não será compreendida, ninguém se dará ao trabalho de analisá-la e, provavelmente, você será julgado um péssimo amador. A verdade é que não me sinto distinta o suficiente para merecer prestígio, mas também sei que não sou incapaz de expor idéias e sentimentos. Eu aprendi a ler a mente das palavras, a conversar com elas e a extrair a essência do seu âmago! Não sou perita nisso, nunca o serei. Mas eu aprendi, de certa forma. Eu aprendi a escrever, aprendi a me confessar com as palavras e fazer delas boas confidentes, apesar de saber que essa condição se extingue quando alguém com igual capacidade de seduzir palavras aparece, extraindo meus segredos das minhas melhores amigas. Caeiro, que escrevia uma filosofia anti-filosófica, foi e ainda é aclamado por isso, por sua contradição. Eu, todos os dias, sou criticada pela minha falta de clareza, "prolixidade", ou outras causas injustas. Há pessoas querendo barrar algum brilhantismo que eu possa possuir. Li, em algum outro autor, que "são precisos anos de experiência para ser capaz de criar sem um público". Eu não possuo tais anos. Sei que, até possui-los, sofrerei muito com isso e me deixarei abalar inúmeras vezes. Porém, eis minha válvula de escape: se é que possuou algum intelecto, há pessoas tentando destruí-lo, o tomando por incorreto ou irreal, substituindo um trabalho de alma por similaridades frívolas! Me sinto injustiçada, mais uma vez, pois caberia a mim explicar tudo sobre o que discorri até então. Não o farei. Tomei uma decisão: vivo para mim. Sei que será difícil agir de acordo, contudo, é este meu protocolo! Não danço conforme a sua música. Pode parecer que sim, mas saiba que meu corpo é apenas uma carcaça, algo que, nesse plano, é útil para que meu conteúdo, minhas idéias e meus sentimentos, permaneça imaculado, sem o iminente perigo do contato com suas trivialidades. Por dentro eu rio de você. Nada me dará mais prazer do que ver você, em seu ledo engano, acreditando que conduz essa dança. Eu sou tudo o que há de melhor para mim. Finja ser ardiloso enquanto eu finjo ser estúpida. Estou me deleitando com a companhia sem igual que só a solidão pode me oferecer.