Se tivermos, da vida, a ilusão do cinema, alguém ¹ nos perdoe, pois somos pequenos sonhadores, iludidos duas vezes. O cinema, apesar de quase nunca decepcionar, criado por pessoas, também pode falhar. A música pode não tocar e o mocinho perder a batalha. Sem dizer dos últimos segundos, que podem não ser o bastante. É apenas uma aproximação probabilística, quase científica, de nossas insustentáveis esperanças humanas. Ou seja, são navios no céu. Já a vida. Ela é mais uma demonstração do quão fúteis são os nossos desejos. Queremos algo grande, almejamos uma vasta abrangência, repudiamos os limites, sem dúvidas. Mas simplesmente negligenciamos tudo o que é desejado. Verdadeiramente, tudo o que se quer é ser amado, além do ser amado. Às vezes me pergunto se não é mesmo o desfecho que valida toda a trama. Depois de concordar, fico pensando o quanto isso é injusto. Por que razão (que razão há nisso, senão o costume) deveríamos imaginar que as últimas linhas são a explicação de todo o labor deslindado anteriormente? Afinal, depois do final, o que há, senão dúvida? E, depois da vida, o que há, senão a escuridão em que se encerram os questionamentos mais belos e, quiçá, frutíferos? A trilha sonora, na vida, nem sempre é agradável, tampouco condizente com o momento. O sentimento, contudo, sempre é correto, pois basta sentir para saber que é verdadeiro. Não é falácia, não é sofisma. É apenas fé. As horas não são estipuladas previamente, não é possível retroceder e a projeção... é apenas virtual. Logo, quem imaginou a vida provavelmente fundamentou-se no momento em que a vida acontece, com o privilégio de poucas certezas inconsistentes, que, apesar dessa qualidade, são suficientes para uma existência consciente: o passado permanece no ser, permitindo que nada seja em vão; o futuro é cheio de possibilidades que vão se insinuando à medida que a vida acontece, de acordo com suas especificidades, mas uma delas, a única sobre qual estamos certos, é a escuridão da dúvida, que associamos à finitude. Com essas duas sentenças, deveríamos ser capazes de usufruir plenamente dos momentos, contudo, não sei em que ponto isso aconteceu, perdemos a capacidade para fazê-lo. Esperamos até que o fim esteja inegavelmente próximo para intencionarmos algum tipo de sabedoria na prática da vida. Método nem um pouco sagaz. E, sem mais, digno de muito pesar.
¹ denotação de um pouco de agnosticismo, de incredulidade a respeito da superioridade metafísica... coisas do tipo. Jamais falta de fé.
¹ denotação de um pouco de agnosticismo, de incredulidade a respeito da superioridade metafísica... coisas do tipo. Jamais falta de fé.
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