quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O compasso da natureza, o ritmo da vida.


Seria a vida natural? Mesmo quando nascemos, em cidades impermeabilizadas, assim como os corações que as construíram, naturalmente não somos feitos para pertencer ao lugar em que vivemos. E, com certeza, para que sejamos plenos, haverá um ponto de nossa vida em que nos daremos conta de que essa verdade sempre nos acompanhou. Desse momento em diante, tudo continuará sendo do mesmo modo que até então o fora, exceto pela presença fria da sombra daquilo a que chamamos de consciência, megera acompanhante dos felizardos que se deparam com as deprimentes verdades da vida, hipernatural.
A natureza segue um compasso peculiar, a vida, dependendo do momento e de quem é o maestro, tem um ritmo que o é ainda mais e, sem reminiscências, não procura adaptar-se harmoniosamente ao resto dos elementos que procuram lhe ser complementares. O que quero dizer é que somos maestros arrogantes de uma orquestra que pretende, fora de casa, num palco gentilmente - ou na medida em que é possível e no ângulo então valorizado - cedido, interpretar uma obra fracassada, intuindo desdenhar do simpático público e do adorável anfitrião.
Mesmo a arte não é natural, pois ela é - quando verdadeiramente arte - a expressão da nossa humanidade. Quantos poetas, efêmeros em sua memorável imortalização, com seus versos efêmeros, não procuraram exaltar a vida bucólica? Mas ela é inviável. Observe o lacônico movimento das nuvens, que se vão transfigurando de coelhos a feições que buscam desesperadamente saciar o desejo de um insípido beijo, fugidio e sem sentimento, e, quando um ponto de luz lhe fizer vislumbrar a realidade do homem rasgando violentamente a beleza do céu, todo um ano se foi, a história da sua vida sofreu uma brusca inovação, caminhos decisivos - quais não são? - foram tomados e você sequer foi capaz de se dar conta disso tudo. As nuvens estão muito diferentes, no meu céu, tudo são flores.
No contraste que é o universo, eu sentei para observar uma flor, que nasceu na fenda de uma calçada, morrendo. E, nesse mesmo instante, minha vida se levantou para me observar, achando patética a minha vontade de unir-me à natureza de modo harmonioso, desaprovando minha pretensão, pois volições e realizações são dissonantes quando se diz de pessoas. E as pessoas nada são se comparadas à vida. Elas são desprezíveis; todas as partes separadas, quando juntas, não resultam em mais que um monte de fingimento.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Terça ou quarta...

Por que tão feliz?



Eu gostaria de não estar tão bem, pois assim eu poderia me sentir um pouco melhor. Não acho a felicidade muito intelectualizada... acho-a menos ainda bonita. Ela só é prazerosa, mas, eis que o prazer pleno é a felicidade constante, sendo esta impossível, aquele é utopia. E por quê o hedonismo? Por quê essa droga de lei máxima da vida? Por que todos nos resumimos apenas a isso? Não quero me unir à prostituta e ao advogado nessa busca irracional. Eu quero viver a mim, explorar tudo o que, dentro da minha pele, há de melhor. E o que lá existe não é felicidade. Esse sentimento barato é o que me reduz à prostituta e ao advogado. Sejamos todos livres e vivamos nossa vida de prostituição e advocacia, ao menos uma vez por dia, nos vendendo, filantropicamente, em nome do prazer do próximo e defendendo a todos de seus próprios fantasmas, inclusive dos nossos.
Nunca antes as palavras foram tão imprecisas e as frases tão incertas, pois não havia o torpor proporcionado por essa felicidade vigarista. Ela só veio para anuviar meus pensamentos, tirar do meu lápis a habilidade e dos meus olhos a atenção. Eu gostaria de falar sobre o tamanho do meu amor, da minha dor, da riqueza das minhas reflexões, do meu - breve e, justamente por isso, cheio de remorso - arrependimento, da minha falta de virtudes e da minha desilusão sobre o mundo. Mas como falar disso quando se está imerso em enganos deleitantes? Queria falar do meu asco às frivolidades, mas é passo em falso. É exatamente isso que estou fazendo. Minha incorruptível convicção se deu a idiotices. Só queria entender por que razão ainda me sinto tão bem - afora a incapacidade dissertativa atingida em alto nível e grande estilo.