Seria a vida natural? Mesmo quando nascemos, em cidades impermeabilizadas, assim como os corações que as construíram, naturalmente não somos feitos para pertencer ao lugar em que vivemos. E, com certeza, para que sejamos plenos, haverá um ponto de nossa vida em que nos daremos conta de que essa verdade sempre nos acompanhou. Desse momento em diante, tudo continuará sendo do mesmo modo que até então o fora, exceto pela presença fria da sombra daquilo a que chamamos de consciência, megera acompanhante dos felizardos que se deparam com as deprimentes verdades da vida, hipernatural.
A natureza segue um compasso peculiar, a vida, dependendo do momento e de quem é o maestro, tem um ritmo que o é ainda mais e, sem reminiscências, não procura adaptar-se harmoniosamente ao resto dos elementos que procuram lhe ser complementares. O que quero dizer é que somos maestros arrogantes de uma orquestra que pretende, fora de casa, num palco gentilmente - ou na medida em que é possível e no ângulo então valorizado - cedido, interpretar uma obra fracassada, intuindo desdenhar do simpático público e do adorável anfitrião.
Mesmo a arte não é natural, pois ela é - quando verdadeiramente arte - a expressão da nossa humanidade. Quantos poetas, efêmeros em sua memorável imortalização, com seus versos efêmeros, não procuraram exaltar a vida bucólica? Mas ela é inviável. Observe o lacônico movimento das nuvens, que se vão transfigurando de coelhos a feições que buscam desesperadamente saciar o desejo de um insípido beijo, fugidio e sem sentimento, e, quando um ponto de luz lhe fizer vislumbrar a realidade do homem rasgando violentamente a beleza do céu, todo um ano se foi, a história da sua vida sofreu uma brusca inovação, caminhos decisivos - quais não são? - foram tomados e você sequer foi capaz de se dar conta disso tudo. As nuvens estão muito diferentes, no meu céu, tudo são flores.
No contraste que é o universo, eu sentei para observar uma flor, que nasceu na fenda de uma calçada, morrendo. E, nesse mesmo instante, minha vida se levantou para me observar, achando patética a minha vontade de unir-me à natureza de modo harmonioso, desaprovando minha pretensão, pois volições e realizações são dissonantes quando se diz de pessoas. E as pessoas nada são se comparadas à vida. Elas são desprezíveis; todas as partes separadas, quando juntas, não resultam em mais que um monte de fingimento.
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