sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Classicismo .

Não seria bom perder a oportunidade para fazer uma retrospectiva, mesmo com o histórico já sujo por uma tentativa frustrada, imprecisa e incompleta, pois a memória trai, ainda mais a de quem é tão inconstante. A primeira queixa é quase metalinguística, pois li pouco durante o ano de 2008 - sinto o impulso de dizer "aquilo que seria do meu grado", aquecendo-me para a queixa quanto aos minutos dispensados à leitura universitária, mas temo que ela não seja verdadeira - e, como consequência, merecida e pesada, além de não desfrutar do próprio prazer da leitura, perder o hábito edificador que me era deleitante, desenvolvi uma incapacidade dissertativa irrestrita: os textos perderam pontos em sua estrutura, sua consistência tornou-se duvidosa e empobrecida, a articulação ficou fraca, a acidez transfigurou-se em simpatia, o vocabulário fez-se menos criativo e propício, ou seja, o lápis perdeu sua desenvoltura no contato com o papel e, enfim, os pensamentos ficaram envergonhados por sua própria falta de coerência e coesão. Junto a esta queixa está anexa a primeira meta - as abomináveis metas do começo de ano, tradicionalmente convencionadas, secularmente recitadas e raramente objetivadas -, que é a de recuperar, ao menos, a antiga capacidade intelectualizante da leitura e escapista da dissertação. Sem ambas não sei como vivi todo um ano - desejando acreditar fortemente que não apenas sobrevivi, pois há razões estimulantes para tal -, sem viajar particularmente pelos recônditos de minha mente perturbada e extravasar as ondas de emoções de modo codificado, com um toque de presunção, a fim de permanecer apenas com aquela sensação reconfortante e estabilizadora de missão cumprida.
Agora, obedecendo a uma classificação de acordo com a importância, não sei ao certo qual deveria ser a segunda queixa. Provavelmente isso se deve ao fato do acúmulo de pensamentos não expostos - sequer internamente aproveitados, francamente - que se acomoda em minha mente ter finalmente encontrado, aqui, oportunidade de expressão, o que os faz permanecer todos confinados ao quase, ao muito próximo da realização, em função da falta de organização que impera no desespero pela fruição. Talvez seja essa uma boa reclamação: ficaram muitos porvires e muitos aproximadamentes. Os sentimentos não puderam ser plenamente sentidos, as emoções expressas e tampouco os pensamentos refletidos. Tudo aconteceu muito rápido, nunca o relógio foi tão ingrato ou o calendário tão assustador. Se isso for, como muitos disseram, a vida, perdoe-me, mas prefiro continuar apenas com aquele projeto que havia experimentado até então. Adaptar-me a tudo isso foi dolorido, apesar de a dor ainda não ter sido real, e custoso, apesar de o valor ainda não ter sido corrigido.
Contudo, a despeito de ter dito coisas que, desatentamente, podem ser interpretadas como destaques somente aos aspectos puramente negativos, não pretendo amaldiçoar 2008, esquecê-lo ou arrepender-me dele, pois foi simplesmente o ano mais inédito de toda minha curta existência. Isso não se deve somente ao fato do meu ingresso na universidade, o que é banal demais em relação à amplitude daquilo que acredito ser deveras relevante. Em 2008 eu descobri que a vida acontece, que nós precisamos fazer, que o videogame pode ser um microcosmo simplificado e amenizado da espantosa dinâmica do universo, que nenhuma metáfora é suficiente para explicar sentimentos jamais vividos e repentinamente cônscios, que as experiências podem nos fazer aprender de verdade, que podemos ser simultaneamente hipócritas, demagogos, mentirosos, inteligentes, amorosos, completos idiotas e brilhantes - o que é o ápice da humanidade -, que as pessoas são horríveis e inexplicavelmente atraentes, que as pessoas são diferentes, que as pessoas são iguais, que eu sei tudo e não sei nada, que é impossível compreender com o coração, que o amor não é para sempre e que tudo, até mesmo o mais puro, sincero e intenso sentimento é perecível, dentre tantos outros quês felizes e infelizes, tão embora tudo isso seja pouquíssimo e incompleto.
Algumas coisas me dão vontade de explodir e, acima de tudo, tenho vontade de dizer tudo ao mesmo tempo, intensamente, pois os pensamentos não param de fervilhar e, com isso, fundir minha mente ao meu coração, lembrando que os músculos se cansam e nos lembram de que o mundo físico ao nosso redor faz cobranças a todo momento e, portanto, as realizações não correspondem aos nossos desejos ou mesmo aos nossos esforços.
E, pois é, não basta dizer e criar ilusões, é preciso decidir um caminho a tomar e, a partir daí, segui-lo com garra e convicção, agindo factualmente. Enfim, o que eu gostaria era de não me esquecer jamais da crucial importância desse ano que se concluiu, rejeitando todas minhas revoltas contra o senso comum, essas noções e comemorações estúpidas, do quanto minha vida mudou categoricamente durante ele e cada detalhe maravilhoso que ele encerra. Mas... desejos, esforços e realidade... After the game is before the game.

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