quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Não que eu me orgulhe disso ...

mas é possível ser gratificado por suas omissões, suas hipócritas atitudes, suas falsas demonstrações e indiferentes realizações. Mas isso é algo que eu já deveria ter imaginado há muito tempo. Não somos omissos apenas em relação a coisas boas, egoistamente, tampouco hipócritas com as ruins, obstinadamente. Há sempre um quê de incompreensível em nossas ações, mesmo em algumas das menos dignas de reflexão.
Ainda assim, é provável que nos orgulhemos de tais gratificações. Não que isso seja um problema, mas é só mais uma etapa desse ciclo, pois um sentimento de culpa, mínimo que seja, que esteja contido nesse orgulho já é suficiente para a atribuição de um valor negativo ao primeiro sentimento; aos outros, quem sabe, por conseguinte.
Não sei o que penso a respeito da sabedoria, se ela implica práticas que a comprovem ou não, nunca passei por um momento suficientemente ocioso e intelectualizado para chegar a uma conclusão, mas sei que, a respeito de todo o conflito, soube por toda a minha vida, sempre. Diferente de prepotência, como pode parecer, isso é uma confissão frustrada, o reconhecimento da incapacidade - independente dos seus motivos - para mudar verdadeiramente meu modo de viver.

domingo, 5 de outubro de 2008

Seria maravilhoso se eu soubesse melhor o que dizer ...

porque é sobre você que eu menos tenho propriedade para romantizar; bem sabemos que a poesia, ignóbil, só se aplica a uma única, perfeita e especial criatura, cuja supremacia reconhecemos sem mais. Contudo, a inspiração está na essência da relação, logo, experimentemos. Na nossa história a razão não é presente por outro motivo além da sátira, afinal, não há pretexto suficientemente forte para que preenchamos uma lógica sentimental objetiva. Pode ser que existam outras mil repetições da nossa prosa, mas tenho certeza de que ela é, dentre todas, singular. O ideal seria ver duas crianças, na gangorra, rindo juntas, que, alguns anos mais tarde, cruzariam os canudos, vestidas em becas iguais e, mais tarde ainda, se encontrariam, primeiramente no horário sagrado do almoço, um brinde à amizade, depois, somente aos domingos, para que se pudesse ver, então, novas crianças dividindo a gangorra e, com isso, tirar proveito de boas lembranças, experimentando saudades e arrependimentos, cogitando possibilidades, tomando consciência do que é a vida, de modo gradativo e adequado. Tudo isso é belo, bastante rústico, e merece ser emoldurado por uma memória bem entalhada. Mas acho que exibir memórias no console de uma lareira, ao som lamurioso de uma vitrola introspecta, não faz o tipo... É tudo muito piegas, inclusive tal emprego léxico. O ponto forte é que, provavelmente, jamais chegaremos a um acordo, às vezes simplesmente por falta de disposição para, mas, sem maiores considerações a respeito, não precisamos mudar isso, já que somos capazes de conviver bem com a diferença. Pelo menos com a nossa, na qual somos hábeis para chegar a um consenso, mesmo entre todas as inumeráveis desavenças. Tudo se resume ao copo. Hoje é outro dia e não me sinto, como no anterior, disposta a deslindar de modo cronologicamente ordenado tudo aquilo que diz respeito ao nosso encontro. Apesar disso, gosto da primeira parte que foi laboriosamente tramada. Nunca antes deixei transparecer, de modo tão desavergonhado, o ponto em que se entrelaçam os blocos do texto, pois sempre me esforcei para, por pensar que assim o argumento ganharia força, tornar toda uma rede de pensamentos, superficialmente desconexos, numa única idéia consistente. Reiterando, estou, portanto, pedindo que experimentemos. Será minha inauguração em tal esforço e, como é com você, creio que poderei sentir-me livre para arriscar, uma vez que já inauguramos tantas outras ocasiões. Ou, pelo menos, é o que acredito. Depois de tanto discurso vago, imaginando que finalmente brotariam-me as palavras mais adequadas para ilustrar o que sinto, as palavras que faltam são gradualmente transformadas naquilo que sinto, sendo que, com isso, o sentimento inicial não se extingue, apenas se perde em meio às transformações que lhe dão novas cores, fazendo com que todos os sentimentos acabem por se assemelharem, abrangindo matizes não muito variadas e nem tanto atrativas. Eles são, agora, atrativo amargo apenas para quem os cultiva. Mergulhando em mim mesma, os vejo implorando por olhares, pedindo atenção. Mas não lhes concedo tanta, afinal, não poderei dissertar sobre algo tão insípido. Enfim, a tentativa foi feita - experimentamos - mas, provavelmente, o objetivo não foi atingido. Tudo o que sinto foi transformado em prosa. E a prosa se acabou. Mas não o que sinto.