segunda-feira, 27 de junho de 2011

A coisa mais gostosa do mundo

acontece quando você está no meio do quarto ano de distância de casa. Quando a saudade já é algo paradoxal, quando você já começa a se sentir meio louca, porque não consegue sequer concluir um raciocínio sem fazer um sample de análise funcional - saudade, operação estabelecedora e por aí vai... -, ter uma conversa com a sua prima sobre o vestibular e o destino sem pensar na determinação de mercado que imperativa e explicitamente atua sobre aquele grupo específico, sobre o impacto desse fenômeno na subjetividades desses indivíduos... você nem consegue separar sua relação com o namorado de uma relação transferencial na qual você deve se abster. No fim das contas, de que adianta ficar levantando pros outros a bandeira de "não seja um profissional em tempo integral" se você mesma sabe que está sofrendo por uma identificação com a persona? Cuida-se, quando o Grande Outro vier lhe autorizar - você tiver um diploma -, pode ser que as coisas piorem no seu quadro disfuncional. A resenha sobre humilhação que você está preparando is freaking you out, porque é impossível não se comover - se você não for um perverso - com o destrinchar de uma realidade sôfrega vivida pelo seus iguais - iguais estes que você e eu, que temos internet em casa e tempo livre, com alguém cobrindo as nossas costas enquanto vadiamos indefinidamente, excluímos o tempo todo, até nas melhores de nossas intenções, procurando incluí-los. É quando você já tá cansado de ver sua cama bagunçada, sua pia cheia de louça, seu banheiro com cara de estragadinho, sua geladeira com a mesma comida insossa da semana toda, seu intestino fazendo greve, seu fígado surtando, seus músculos trincando (pelo enrijecimento, tensão, não por hipertrofia, parece razoável esclarecer), seu cérebro derretido e sua língua cuspindo pra dentro porque ela já esqueceu qual era ao certo seu papel no corpo e você chega em casa no meio de uma madrugada com uma chuva fina e gélida (os significantes, ora pois), que você obviamente não esperava, pois saiu correndo e vestiu qualquer coisa - um shorts, pra sua infelicidade - e vai abrindo a porta quietinha, pra não acordar ninguém, cheia de medos e ansiedade por conta de algo que você acabou de decidir, algo que vem tomando conta de você faz tempo, consumindo o resquício de sanidade que ainda lhe restava, com expetativas otimistas contidas, com um pouco de dor de cabeça e uma lembrança palatar da amargura da vida e entra no seu quarto e encontra sua cama - que você tinha deixado virada desde quando havia levantado na manhã desse odioso dia - arrumada daquele jeito que você gosta de dormir quando a noite é fria: um cobertor dobrado ao meio, pra você deitar em cima e se enrolar, com outros dois por cima, um deles com a pontinha até mais embaixo pra você levantar a perna, arranjando ele pra enrolar os pés.
E daí você lembra que você está em casa. E que tinha alguém te esperando. E que, afinal de contas, você não está sozinho. O mundo não pode ser um lugar tão ruim se nele mora gente assim.

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